segunda-feira, 29 de setembro de 2008

MAIS DIFÍCIL É FALO
E. M. de Melo e Castro

"Mais difícil é falo
que falá-lo

mais difícil é língua
do que lua

mais difícil é dado
do que dá-lo

mais difícil vestida
do que nua

mais fácil é o aço
do que achá-la

mais fácil é dizê-la
que contê-la

mais fácil é mordê-la
que comê-la

mais fácil é aberta
do que certa

nem difícil nem fácil

nem aó nem licor
nem dito nem contacto
nem memória de cor

só mordido só tido
só moldado só duro
só molhada de escuro
só louca de sentido

fácil de falá-lo
difícil de contê-lo
o melhor é calá-lo
o melhor é fodê-lo."

de "Cara lh amas"
O CHÃO É CAMA
Carlos Drummond de Andrade

"O chão é cama para o amor urgente,

amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama."

quinta-feira, 25 de setembro de 2008



apresento-vos um blog de uma grande e especial amiga
de "sorriso gaiato brincando artista"...uma preciosidade.

(ou "O que pode fazer a ausência dos verbos")

/"...Os segmentos do tempo se unem uns aos outros num encaixe quase perfeito, mas não totalmente perfeito. Ocasionalmente, desencontros muito leves acontecem. (continuar a ler...)
INSTANTÂNEO
Urban

"Lua alta no céu
Rastros sobre a areia
Seus pés junto aos meus aqui no chão
Marcas na pele
O gosto da noite
Amor nos lençóis
Lascivo
Urgente
Despudorado
Seu gosto em mim e no gargalo
Segredos de retina
Cumplicidade no olhar
Saudade futura ainda por chegar
Boca que quer comer
Devorar
Que vai sugando… devagar
Este sabor que tenho aqui."
VIAJANDO NO PRAZER
Rozeli Mesquita

"Vou te amar sem preconceito e sem medo
Deixar de lado minha timidez
Seduzir teu corpo, tua boca
Descobrir a loucura, a insensatez.

Encontros de pernas, pelos e poros
Frestas tapadas com língua a sugar
E cada gota orvalhada do teu centro
Escorre pelo corpo ardente em amar

A teimosia das mãos deslizantes
em partes quentes e ardentes
descobre teus recônditos...
Viajo no teu prazer efervescente

Corpos incendiados na loucura
exposta sobre os lençóis de seda
Sou tomada por braços fortes
E levada a viajar em tuas veredas

Gemidos ecoam na noite quente
Chega do outro lado a rua
Atiça desejos alheios
Mas é na tua cama que me encontro nua

No infinito caminho da luxúria
Que teu desejo me apresenta
Conheço a volúpia do teu prazer
Que no teu corpo, me acorrenta

E nas rotas desse prazer desmedido
Satisfaço minhas fantasias
Me entrego sem resistência
Despindo-me de qualquer alegoria."
DÁ A SURPRESA DE SER
Fernando Pessoa

"Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro,
faz bem só pensar em ver
seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(se ela estivesse deitada)
dois montinhos que amanhecem
sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
assenta em palmo espalhado
sobre a saliência do flanco
do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gnomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?"
DO PRAZER DOS HOMENS CASADOS
Berthold Brecht

"Mulheres minhas, infiéis, adoro amá-las:
Veem meu olho em sua pelve embutido
E tem de encobrir o ventre já enchido
(Como dá gozo assim observá-las).

Na boca ainda o sabor do outro homem
Ela é forçada a dar-me tesão viva
Com essa boca a rir para mim lasciva
Outro caralho ainda no frio abdómen!

Enquanto a contemplo, quieto e alheio
Do prato do seu gozo comendo os restos
Esgana no peito o sexo, com seus gestos

Ao escrever os versos, ainda eu estava cheio!
(O gozo ia eu pagar de forma extrema
Se as amantes lessem este poema.)"

terça-feira, 23 de setembro de 2008

AO NORTE DE MIM
Ivaldo Gomes

"E o mundo gira em círculos,
Cada vez mais fechados.
É como se fosse uma roda,
A moer minhas esperanças
Sem dó nem piedade.
E gira o mundo em mim,

E muda os fusos
E difusos eu fico,
Eu vou.
E olho o norte da

Minha bússola amorosa,
E o magnético aponta.
O meu desapontamento.
E fico girando os pensamentos,

Ungüentos dos meus
Sonhos, desejos.
Lembro dos beijos,
Dados em ti.
Do universo de
Encantos do céu
Da tua boca.
E rouca fica a voz,

O violão e o verso.
E no reverso dos dias,
Ao Norte de mim.
E rola a vida lá fora...

E gira o desejo no peito...
E o meu astrolábio,

Salgado da maresia,
Molhados dos pingos
Das lágrimas.
Que caem assim.
Ai de mim, prisioneiro.

Desse olhar, que roda, roda,
Ao Norte de mim."

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

INQUIETAÇÃO
José Mário Branco

"A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê,não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está p’ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê,não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
P’ra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Hásempre qualquer coisa que está p’ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda..."

domingo, 21 de setembro de 2008

SOU UM EVADIDO
Fernando Pessoa

"Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah,mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer."